Entre os principais desafios do novo ciclo de investimentos em infraestrutura no Brasil, um deles raramente recebe a atenção que merece: a falta de gente preparada para executar as obras. Elmar Juan Passos Varjão Bomfim, CEO da André Guimarães Engenharia e Infraestrutura, identifica na escassez de mão de obra qualificada o gargalo mais subestimado do setor construtivo nacional, capaz de comprometer prazos, inflar custos e limitar a capacidade do país de transformar investimento anunciado em ativo entregue.
O problema atravessa todos os níveis da cadeia: faltam encarregados experientes, operadores de equipamentos pesados, soldadores certificados, mestres de obras e, no topo da pirâmide, engenheiros de campo dispostos a fazer carreira no canteiro. Elmar Juan Passos Varjão Bomfim acompanha esse fenômeno com a perspectiva de quem viu o setor formar gerações inteiras de profissionais dentro das próprias obras, um modelo de transmissão de conhecimento que se enfraqueceu nas últimas décadas e que precisa ser reconstruído.
O apagão silencioso que começou há uma geração
A origem da escassez atual remonta aos ciclos de retração do setor, que interromperam a formação contínua de quadros técnicos. Quando as obras param, os profissionais experientes migram para outras atividades, se aposentam ou deixam o país, e a cadeia de aprendizado entre veteranos e novatos se rompe. Retomar o ritmo de investimentos sem essa base humana é como tentar acelerar um motor sem combustível: a demanda existe, mas a capacidade de resposta não a acompanha.
Tal movimento revela uma assimetria temporal cruel: contratos se assinam em meses, mas um encarregado de estruturas leva dez anos para se formar na prática. Elmar Juan Passos Varjão Bomfim pondera que o setor precisa encarar a formação de pessoas como investimento estratégico de longo prazo, não como custo administrativo, sob pena de assistir aos cronogramas das grandes obras esbarrarem repetidamente no mesmo limite: a falta de quem saiba fazer.

Atrair os jovens para o canteiro exige reinventar a imagem do setor
A construção civil compete por talentos com setores percebidos como mais modernos, confortáveis e promissores. Para o jovem que escolhe carreira hoje, o canteiro carrega uma imagem de trabalho duro, insalubre e pouco valorizado, percepção que o setor pouco fez para reverter. Mudar esse quadro exige mostrar o que a obra contemporânea de fato se tornou: ambiente tecnológico, com drones, modelos digitais, equipamentos automatizados e desafios intelectuais à altura de qualquer indústria de ponta.
Igualmente, as empresas precisam oferecer trajetórias de carreira estruturadas, remuneração competitiva e condições de trabalho dignas para reter quem ingressa. Elmar Juan Passos Varjão Bomfim sinaliza que as construtoras vencedoras da próxima década serão aquelas que tratarem gente como tratam equipamentos críticos: com planejamento de aquisição, manutenção constante e zelo pela longevidade. Capital humano qualificado será o recurso mais disputado do setor.
Formar gente é construir capacidade nacional
A dimensão estratégica do tema ultrapassa o interesse das empresas. Um país que pretende executar simultaneamente programas de saneamento, energia, logística e mobilidade precisa de um exército técnico que hoje não existe em número suficiente. Escolas técnicas, programas setoriais de certificação e parcerias entre empresas e instituições de ensino são peças de uma política de capacidade nacional que o Brasil ainda articula de forma tímida.
Elmar Juan Passos Varjão Bomfim conclui que formar profissionais para a construção é tão estruturante quanto as próprias obras que eles erguerão. A infraestrutura física do país será sempre o espelho da infraestrutura humana que a produz. Investir em qualificação é, portanto, investir na qualidade de tudo o que o Brasil construirá nas próximas décadas: cada ponte, cada estação, cada parque de energia carregará a marca da competência, ou da falta dela, das pessoas que o ergueram.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez

